Monitoramento econômico e gerencial das principais cadeias produtivas do agronegócio brasileiro.
Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil · Serviço Nacional de Aprendizagem Rural.
A produção brasileira de pescados proveniente da aquicultura continua em crescimento próximo a 10% ao ano, apesar do aumento dos custos dos insumos e da perda do poder de compra dos consumidores, agravado pelas instabilidades no mercado internacional provocado pelas guerras e tarifas comerciais nos anos recentes. Por outro lado, o consumo de pescados pelos brasileiros se mantém estável e continua indicando o enorme potencial para venda interna, que ainda é atendida por grande volume de produtos importados, como pode ser observado pela balança comercial negativa.
Produção aquícola brasileira cresce ~10% ao ano, mesmo sob pressão de custos e instabilidade internacional.
Consumo interno estável com grande potencial, mas ainda fortemente suprido por importações — gerando saldo negativo.
Enorme potencial para venda interna, com consumo de pescados mantendo-se estável mesmo diante de pressões econômicas.

É importante ressaltar que a competitividade da produção na aquicultura, em termos de custos, depende de fatores internos à propriedade rural (eficiência no manejo e na gestão da produção em si) que geralmente estão sob o controle do produtor. Mas, também depende muito de fatores externos, como o custo dos insumos, transporte, energia, mão de obra, taxas, impostos, entre muitos outros itens que são definidos pelo mercado e, por isso, fora do controle do produtor.
Podemos dizer que a eficiência da produção aquícola brasileira de tilápia, tambaqui e camarão, principais protagonistas, não deixa a desejar do ponto de vista de "dentro da porteira", sendo compatível à dos países concorrentes em termos zootécnicos (crescimento, conversão do alimento e sobrevivência). Adicionado a isso, o Brasil é um dos maiores produtores mundiais de insumos usados na alimentação animal (grãos, farelos vegetais e farinhas de origem animal), apresentando custos competitivos no principal item de custo que é a ração. Apesar disso, quando comparamos os preços de venda desses pescados produzidos no país, há muita dificuldade em competir com os similares importados. Essa baixa competividade da cadeia de produção é resultado da soma de diversos fatores externos à propriedade, como:
Altos custos de transporte por conta da infraestrutura viária deficiente e custo dos combustíveis.
Altos custos e baixa qualidade da energia elétrica, principalmente na zona rural, que obriga a instalação de geração própria a combustão.
Alta carga tributária, principalmente sobre itens importados, como máquinas e equipamentos.
Baixa produtividade e elevados encargos sobre a mão de obra, que representa o segundo item de custo na produção primária, impactando diretamente sobre os custos dos produtos.
Altas taxas de juros sobre o capital, o que também impacta diretamente sobre o custo de produção.
Elevados custos com a burocracia para manter os empreendimentos regularizados.
Diante desse cenário, quando observamos, por exemplo, o valor praticado por países como o Vietnã na venda do filé da tilápia ao Brasil, fica evidente o que foi descrito anteriormente.

O gráfico ilustra o drástico crescimento nas importações, com o pico no período da Quaresma desse ano, seguido por tendência de queda, efeito do desaquecimento natural do mercado após a Semana Santa, mas também causada pelas barreiras à importação efetivadas por alguns estados da federação. Entretanto, mesmo com a queda no volume de importação, o preço por quilo permanece estável ao redor de USD 4,17 (R$ 21,48 na cotação de julho/26) na chegada ao Brasil (CIF), valor abaixo do custo de produção do filé brasileiro, que está ao redor de R$ 30,00/kg.
Se simularmos, a partir do valor do filé no embarque no Vietnã (USD 4,06 ou R$ 20,91/kg), considerando apenas o rendimento de filé (32%), chegaríamos ao valor de R$ 6,69/kg na tilápia inteira, valor também abaixo do custo de produção da tilápia brasileira. Ao considerar o custo de industrialização e embalagem, estima-se que o valor da matéria prima naquele país estaria entre R$ 5,50 e 5,75/kg. Ao comparar esse valor aos levantados pelo Projeto Campo Futuro da Aquicultura conduzido pela CNA, fica evidente que os custos da produção nacional são mais altos, desfavorecendo nessa competição.
Tabela 1. Custos totais de produção de tilápia levantados pelo Projeto Campo Futuro da Aquicultura da CNA.
O camarão marinho (Litopenaeus vannamei), também conhecido como camarão cinza, enfrenta uma situação similar em termos de competição com o produto importado. Atualmente, o Peru é o maior exportador de camarão processado ao Brasil, tendo como valor médio de chegada ao Brasil de USD 9,30/kg (R$ 47,90 em julho/26). Se compararmos esse produto com o camarão (de 15 gramas) processado no país, chegamos aproximadamente ao mesmo valor. Ou seja, o produto importado está entrando no país ao nosso preço de custo.
Se aplicarmos a mesma lógica usada nos cálculos para a tilápia, na estimativa do valor da matéria prima no Peru, alcançamos a cifra próxima de R$ 19,00/kg vivo, que está abaixo do custo dos produtores brasileiros, conforme indicado pelo levantamento do Projeto Campo Futuro da CNA.
Tabela 2. Custos totais de produção do camarão (15 gramas) levantados pelo Projeto Campo Futuro da Aquicultura da CNA.
Diante desse cenário desafiador, é necessário que o aquicultor brasileiro tenha em mente alguns pontos importantes:
O alto custo do capital (juros) indica que novos investimentos devem ser feitos com muita cautela e planejamento, focando os aportes principalmente em reduzir os custos de produção por meio do ganho em eficiência e não apenas para ampliar sua escala.
A baixa produtividade e custos dos encargos com a mão de obra apontam para a necessidade de capacitar cada vez mais os recursos humanos na propriedade, para ganho de qualidade e eficiência no trabalho e, principalmente, para eliminar desperdícios.
Criar diferenciais de qualidade nos seus produtos e buscar mercados de nicho, enquanto a produção não atinja a capacidade de competir no mercado de massa.
Buscar parceiros comerciais interessados em relações de médio-longo prazo, onde ambos invistam na parceria para consolidar o comércio e amenizar os impactos das oscilações de preço e oferta dos produtos no mercado.
No âmbito das políticas públicas, concentrar forças nas organizações setoriais representativas é o caminho mais apropriado para defender os interesses da aquicultura.
Observando o cenário mundial do mercado de pescados, os indicadores apontam para um crescente déficit de produtos, considerando o crescimento da demanda e a estagnação da oferta dos estoques naturais. Assim, resta à expansão da aquicultura suprir a procura por esse grupo de alimentos, onde o Brasil é apontado como um dos países de maior potencial de crescimento. Entretanto, para isso, o setor necessita de políticas públicas mais efetivas e, também, de organização setorial para poder transformar esse potencial em produtos mais competitivos.
Os indicadores apontam para um crescente déficit de produtos pesqueiros, com demanda em crescimento e estoques naturais estagnados.
O Brasil é apontado como um dos países de maior potencial de crescimento na aquicultura mundial para suprir a demanda por pescados.
O setor necessita de políticas públicas mais efetivas e de organização setorial para transformar o potencial em produtos mais competitivos.
Reprodução permitida desde que citada a fonte: Projeto Campo Futuro – CNA / Senar – Serviço Nacional de Aprendizagem Rural